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Perícia em celular: o que o caso de Alenquer, no Pará, mostra sobre prova digital

Perícia em celular: o que o caso de Alenquer, no Pará, mostra sobre prova digital

Em março de 2026, um investigador da Polícia Civil sofreu um atentado no oeste do Pará. Os celulares apreendidos foram para a perícia oficial — e o caso, noticiado pelo G1, é um bom retrato do que um aparelho guarda e de como isso vira prova.

Dani Kaloi

Programadora · Arquiteta de Sistemas · Inteligência de Fontes Abertas · LGPD · Fundadora da Investigaree

O que aconteceu

Em 19 de março de 2026, em Alenquer, no oeste do Pará, um investigador da Polícia Civil estava em seu carro quando dois homens em uma moto se aproximaram e atiraram em sua direção. O tiro não o atingiu: acertou a parte de cima do veículo.

Polícia Civil e Polícia Militar saíram à procura dos envolvidos. Segundo a investigação, três suspeitos foram presos e o carro que teria sido usado na ação foi apreendido. Os celulares apreendidos seguiram para a perícia de computação forense. O caso foi noticiado pelo G1 em 5 de outubro de 2026, a partir de informações da Perícia Criminal Oficial do Estado do Pará.

Antes de seguir, um aviso que vale para todo o texto: ninguém é culpado porque um celular tem uma mensagem. O que segue é o que a investigação e a perícia dizem ter encontrado. Quem responde pelo crime é decidido pela Justiça. Por isso, este texto não cita o nome de nenhum suspeito.

O que a perícia fez nos celulares

A perícia recuperou e analisou o que estava guardado nos aparelhos: conversas, mensagens, vídeos, imagens e outros arquivos. Segundo a investigação, o material incluía:

  • sinais de que a rotina da vítima era acompanhada antes do atentado;
  • conversas combinadas antes do crime, depois comparadas com outras provas;
  • vídeos e fotos ligados aos investigados e às circunstâncias do caso;
  • registros de treino com arma de fogo;
  • outros dados que ajudaram a reconstruir como a ação foi preparada.

Tudo isso foi organizado em laudos e comparado com o resto da investigação. É essa comparação que transforma um arquivo solto em prova.

O perito criminal do caso é Ibsen Rodrigues Maciel, da Polícia Científica do Pará. Ele também integra o conselho consultivo da Investigaree, e por isso deixamos isso claro logo aqui: o trabalho dele, neste caso, foi como perito do Estado.

As imagens abaixo são telas do exame feito nos aparelhos. Telefones e nomes de terceiros foram cobertos, e um rosto foi desfocado.

O perito criminal Ibsen Maciel, da Polícia Científica do Pará, diante do computador, ao lado de foto de um investigador da Polícia Civil

Mais de mil registros de conversa num só lugar

O programa de análise lista tudo o que foi copiado do aparelho em categorias. Na tela abaixo, a seção de WhatsApp de um dos celulares aparece com 1.187 registros, e dá para ver áudios com o dia e a hora de cada um.

Tela do programa de análise mostrando a categoria WhatsApp com 1.187 registros e mensagens de áudio com data e hora

Uma busca leva à conversa

Em outro celular, uma busca por uma palavra mostra todas as conversas em que ela aparece, cada mensagem com dia e hora. É assim que, em milhares de mensagens, se chega ao trecho que interessa — e é por isso que a hora de cada mensagem importa tanto.

Tela do programa de análise com busca por uma palavra e conversa de WhatsApp com mensagens datadas

Vídeos e fotos também contam

O mesmo aparelho tinha quase 2 mil vídeos e mais de 4 mil imagens. Segundo a investigação, parte desse material indicava o acompanhamento da rotina da vítima.

Tela do programa de análise na galeria de vídeos, com um vídeo aberto e o rosto desfocado

Outro vídeo, de poucos segundos, mostra uma pessoa atirando em um terreno. Segundo a investigação, é um dos registros de treino com arma de fogo analisados.

Tela do programa de análise com vídeo de uma pessoa atirando ao ar livre

O que este caso não diz

Vale separar três coisas.

Um laudo não é uma sentença. O que a perícia encontra entra no processo junto com o resto, e a defesa pode contestar.

Esta matéria vem de fonte oficial, não de uma perícia nossa. A perícia criminal oficial é atividade do Estado, feita por peritos da Polícia Científica. A Investigaree é uma empresa privada e, como empresa, não participou desse caso, mesmo que o perito seja um de seus conselheiros.

Nem tudo o que aparece em tela vira prova. O programa mostra o que existe no aparelho. Para que aquilo valha, é preciso registrar de onde veio, quando foi copiado e quem teve acesso. É o que o Código de Processo Penal chama de cadeia de custódia (arts. 158-A a 158-F).

O que isso ensina a quem não é polícia

O caso é de polícia, mas o que o celular guarda é igual para qualquer pessoa.

  1. O aparelho guarda mais do que você lembra. Conversas, áudios, fotos e vídeos ficam registrados com dia e hora, e o horário de uma mensagem costuma pesar tanto quanto o texto dela.
  2. Apagar nem sempre apaga. Mensagem apagada pode deixar rastro, mas a chance cai a cada dia de uso. Se você precisa do que foi apagado, pare de usar o aparelho para o que grava dados.
  3. Print sozinho é frágil. Uma imagem não carrega o que a produziu. O que sustenta a prova é a cópia do aparelho, com registro do que foi feito. Veja também: o que fazer nas primeiras horas com um print de WhatsApp.
  4. Quem examina precisa mostrar o caminho. No caso de Alenquer, o laudo foi comparado com outros elementos. Em qualquer disputa, é isso que se cobra de quem apresenta uma prova digital.

Se você está no meio de uma situação assim: não apague nada, não responda mais nada e guarde o aparelho como está. Esses três passos não custam nada, e são os que não dá para refazer.

Se já passou dessa fase, ou não sabe em que fase está, a consulta inicial é gratuita e conduzida com sigilo e respeito — e serve, entre outras coisas, para dizer com honestidade se ainda há o que preservar.

Perguntas frequentes

O que a perícia faz quando apreende um celular?

Copia os dados do aparelho com ferramentas próprias, sem alterar o original, e depois organiza e analisa o que foi copiado: conversas, áudios, fotos, vídeos, contatos e arquivos. O resultado vai para um laudo, que é comparado com as outras provas do caso.

Mensagem apagada pode ser recuperada?

Às vezes. Depende do aparelho, do aplicativo e de quanto o celular foi usado depois: cada dia de uso aumenta a chance de o espaço ser sobrescrito. Não existe garantia, e quem promete recuperar tudo está prometendo o que não controla.

O que aparece num celular examinado serve como prova de culpa?

Sozinho, não. O conteúdo de um aparelho é um elemento entre outros, e quem decide o que ele significa é a Justiça, depois do contraditório. No caso de Alenquer, a própria Polícia Científica diz que o material foi confrontado com os demais elementos da investigação.

A Investigaree fez essa perícia?

Não. A perícia criminal oficial é atividade do Estado, feita por peritos da Polícia Científica. O perito do caso, Ibsen Maciel, integra o conselho consultivo da Investigaree, mas a empresa, que é privada, não participou: este texto explica uma matéria já publicada.

Posso pedir uma extração do meu celular para usar num processo?

Pode, no seu próprio aparelho, e o ideal é fazer antes de mexer nele: o exame precisa registrar o estado inicial, o que foi feito e quem teve acesso. Esse registro é o que dá peso ao material quando a outra parte o contesta.

Precisa de ajuda com isso?

Cada caso tem particularidades. A consulta inicial é gratuita e conduzida com sigilo e respeito.

Coleta de provas digitais com cadeia de custódia

Conteúdo técnico informativo, não consultoria jurídica. Cada caso tem particularidades que devem ser avaliadas por um advogado.